Fortalecer a rede de proteção, qualificar o atendimento e ampliar a capacidade de identificar situações de violência contra as mulheres antes que elas evoluam para casos mais graves. Esses são alguns dos objetivos da Capacitação Regional da Rede de Proteção às Mulheres em Situação de Violência, que será realizada na próxima terça-feira, 25 de agosto, a partir das 13h, na Câmara de Vereadores de Sobradinho
A atividade é promovida pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, em conjunto com a Coordenadoria Municipal da Mulher de Sobradinho, em parceria com o Centro de Referência Estadual da Mulher – Escuta Lilás. O encontro reunirá representantes de municípios da região Centro-Serra, gestores, profissionais, integrantes da rede de proteção, entidades e comunidade.
Durante entrevista ao Programa de Sábado, da Rádio Sobradinho, a diretora da Coordenadoria da Mulher, Beloni Turcatto, destacou que a capacitação será mais do que uma palestra. A proposta é promover um treinamento prático para qualificar a forma como diferentes setores da sociedade acolhem, orientam e encaminham mulheres que estejam enfrentando situações de violência.
Segundo ela, a equipe do Escuta Lilás deverá abordar desde o acolhimento inicial até a identificação de sinais que possam indicar uma situação de risco. Entre os temas estão a identificação precoce do risco de feminicídio, avaliação de risco, medidas protetivas, fluxos de atendimento, encaminhamentos e estratégias de prevenção.
A programação também pretende mostrar que a violência doméstica não começa necessariamente com uma agressão física. Durante a entrevista, os participantes ressaltaram que comportamentos como controle, proibições, chantagens, intimidações, humilhações e xingamentos podem representar sinais de uma relação abusiva e, com o tempo, evoluir para agressões físicas e situações de maior risco.
Um dos instrumentos apresentados durante a conversa foi o chamado violentômetro, utilizado para ajudar na identificação dos diferentes níveis de violência. A orientação é que situações de chantagem, mentira, manipulação e intimidação sirvam como sinais de alerta. Quando aparecem agressões, empurrões e ameaças, a recomendação é buscar ajuda e denunciar. Já situações de confinamento, ameaças com armas ou objetos, abuso sexual, mutilação e outras formas graves de violência podem indicar risco à vida da vítima.
Outro ponto destacado foi o impacto da violência sobre crianças e adolescentes. Os participantes observaram que conflitos e situações de violência vivenciadas dentro de casa podem repercutir no comportamento dos filhos, inclusive no ambiente escolar. A exposição contínua à violência pode fazer com que determinados comportamentos sejam entendidos pelas crianças como normais e posteriormente reproduzidos em outros espaços de convivência.
A assistente social escolar Pamela Endler também chamou atenção para a importância de compreender os diferentes formatos de família existentes atualmente. Segundo a discussão levantada durante a entrevista, os arranjos familiares mudaram e a rede de proteção precisa acompanhar essa realidade. A violência pode ocorrer em diferentes configurações familiares e relações afetivas, não estando restrita a um único modelo de família.
Nesse contexto, os participantes reforçaram que relações afetivas não podem ser baseadas em posse ou controle. O relacionamento deve ser construído a partir do respeito, da autonomia e do diálogo. Também foi defendida a divisão das responsabilidades dentro da família, tanto na criação dos filhos quanto nos cuidados com a casa e demais tarefas do cotidiano.
A representante da Associação de Agricultoras de Sobradinho, Lizete Waccholz, ressaltou ainda a importância do diálogo dentro das famílias e da educação baseada no respeito. A preocupação também envolve a forma como os filhos aprendem a lidar com conflitos e relacionamentos a partir dos exemplos que observam em casa.
Para os participantes da entrevista, a prevenção da violência precisa envolver toda a comunidade. Por isso, a capacitação de terça-feira não será direcionada exclusivamente às mulheres. A participação dos homens também é considerada fundamental, já que a mudança cultural necessária para combater a violência contra a mulher depende do envolvimento de toda a sociedade.
A ideia defendida durante a entrevista é ampliar a capacidade de identificação das situações de violência em diferentes espaços, como escolas, empresas, entidades, comunidades, igrejas e associações. Pessoas que tenham contato cotidiano com a população podem perceber sinais que muitas vezes passam despercebidos e orientar possíveis vítimas sobre onde buscar ajuda.
Escuta Lilás terá espaço de atendimento em Sobradinho
Outro anúncio feito durante a entrevista foi a organização de uma sala de atendimento vinculada ao Escuta Lilás em Sobradinho. Conforme Beloni Turcatto, o município já recebeu recursos para a estruturação do espaço e existe a previsão de novo repasse posteriormente.
A proposta é disponibilizar um ambiente reservado, no qual mulheres possam ser ouvidas com privacidade e segurança. A intenção é contar com profissionais capacitados para realizar o acolhimento e, quando necessário, encaminhar cada situação aos serviços responsáveis.
Beloni destacou que muitas mulheres deixam de falar sobre a violência por medo das ameaças sofridas dentro de casa. Por isso, além de oferecer atendimento, a Coordenadoria pretende fortalecer vínculos de confiança com as comunidades e ampliar a presença da rede de proteção também nos bairros e no interior.
A capacitação regional será uma oportunidade para alinhar esses procedimentos e aproximar os diferentes órgãos que atuam no enfrentamento da violência.
Defesa pessoal também integra programação do Agosto Lilás
Dentro das ações do Agosto Lilás, Sobradinho também terá, no dia 26 de agosto, às 18h30, no Clube Comercial, um workshop de defesa pessoal destinado a meninas e mulheres.
A atividade contará com participação da Brigada Militar e da Associação Centro Serra de Artes Marciais (ACSAM). O convite foi reforçado durante a entrevista para mulheres de diferentes idades e setores da comunidade.
Os participantes também destacaram a importância da participação das trabalhadoras rurais, estudantes, profissionais da educação, comerciantes, representantes de associações e demais integrantes da comunidade. A ideia é que quem participar possa posteriormente compartilhar os conhecimentos e ajudar a identificar situações de violência.
Participação de toda a sociedade
A advogada Giovana Sarmiento de Oliveira e os demais participantes reforçaram a necessidade de conhecer os mecanismos disponíveis para proteção das vítimas e de compreender que a responsabilidade pelo enfrentamento da violência não é apenas da mulher.
O grupo defendeu uma atuação integrada entre assistência social, educação, saúde, segurança pública, Judiciário, Ministério Público, entidades, igrejas e comunidade.
O padre Nelson Lara da Rosa, pároco da Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, também participou da entrevista e colocou-se à disposição para contribuir com o trabalho de orientação e acolhimento. A participação das comunidades religiosas foi apontada como importante para ampliar o alcance das informações e fortalecer a rede.
A capacitação do dia 25 terá início às 13h e deverá se estender durante a tarde. A programação prevê momentos de exposição, orientação e esclarecimento de dúvidas com profissionais especializados do Centro de Referência Estadual da Mulher – Escuta Lilás.
O convite da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e da Coordenadoria da Mulher é dirigido a representantes de órgãos públicos, instituições, entidades, empresas, profissionais e à população em geral. A proposta é que cada setor possa conhecer melhor seu papel na rede de proteção e contribuir para que situações de violência sejam identificadas e enfrentadas o mais cedo possível.
A mobilização integra as ações do Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento da violência contra as mulheres, e reforça a ideia defendida pelos participantes da entrevista: prevenir a violência exige informação, acolhimento, união e uma rede preparada para agir antes que seja tarde demais.








