A abertura das comportas das barragens do Sistema Jacuí costuma gerar dúvidas sempre que o Rio Jacuí sobe de nível durante períodos de chuva intensa. Para esclarecer como funciona essa operação, o engenheiro civil e especialista em segurança de barragens Ricardo Eifler, que atuou por muitos anos no sistema como responsável pela segurança das estruturas, explicou que as decisões seguem regras técnicas e têm como principal objetivo reduzir os impactos das cheias, preservando tanto as barragens quanto as comunidades localizadas rio abaixo.
Em entrevista ao Programa Enfoque da Rádio Sobradinho, Eifler disse que, embora as barragens sejam conhecidas principalmente pela geração de energia, elas desempenham um papel igualmente importante na regulação da vazão dos rios durante períodos de chuva. Quando há previsão de precipitações intensas, os reservatórios passam por uma redução gradual do nível da água para criar capacidade de armazenamento. Dessa forma, quando o grande volume de chuva chega, parte dessa água fica retida no reservatório, diminuindo a vazão liberada para jusante e reduzindo o risco de enchentes nas cidades localizadas ao longo do Rio Jacuí.
O engenheiro ressaltou, porém, que esse controle tem limites. Em períodos de chuvas persistentes, como os registrados sob influência do fenômeno El Niño, os reservatórios permanecem próximos da capacidade máxima. Nessa situação, a água que entra precisa ser liberada gradualmente para garantir a segurança das estruturas.
“Se a barragem está cheia e continua recebendo água, por segurança ela precisa liberar parte desse volume. O que não pode acontecer é a água passar por cima da barragem”, explicou.
Operação é integrada entre todas as barragens
Eifler destacou que a operação não depende apenas de uma barragem isoladamente. Todo o Sistema Jacuí funciona em cascata, envolvendo os reservatórios de Ernestina, Passo Real, Maia Filho, Itaúba e Dona Francisca, além da influência de importantes afluentes, como os rios Jacuízinho e Ivaí.
A coordenação é realizada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), responsável por acompanhar as condições hidrológicas e determinar a operação das usinas em todo o país. Em situações de emergência, entretanto, os operadores locais possuem autonomia para abrir ou fechar comportas, sempre priorizando a segurança da barragem.
Questionado sobre a rápida elevação do Rio Jacuí no dia 25 de julho, que interrompeu a passagem provisória entre Agudo e Dona Francisca, o especialista afirmou que atribuir o aumento do nível do rio apenas à abertura das comportas é uma interpretação equivocada. Segundo ele, além da intensa chuva que atingiu toda a bacia, existem afluentes que não possuem qualquer controle por barragens e despejam diretamente grandes volumes de água nos reservatórios. Além disso, as usinas seguem regras operacionais que determinam exatamente quando e quanto cada comporta pode ser aberta.
Para Eifler, o cenário atual é consequência do elevado volume de chuvas dos últimos meses, que mantém praticamente todos os reservatórios cheios, reduzindo a capacidade de armazenar novos volumes de água.
Chuva de 2024 foi considerada excepcional
Ao comentar a enchente histórica de maio de 2024, o engenheiro afirmou que não houve erro de operação das barragens. Ele explicou que o evento foi provocado por uma combinação rara de fatores meteorológicos, com chuva intensa durante vários dias e em praticamente toda a extensão da bacia do Jacuí. Além disso, a precipitação avançou de jusante para montante, uma dinâmica considerada incomum.
Segundo Eifler, em alguns momentos a vazão que chegava aos reservatórios praticamente dobrou a capacidade considerada segura para operação, obrigando a abertura das comportas para preservar as estruturas. O especialista também lembrou que a Usina Hidrelétrica Leonel de Moura Brizola sofreu perdas praticamente totais durante a enchente de 2024 e está passando por um processo completo de reconstrução.

Alerta para áreas proibidas
Outro ponto destacado durante a entrevista foi o risco de frequentar áreas próximas às barragens. Eifler lembrou que locais de pesca e banho situados abaixo das usinas são considerados áreas de risco permanente, justamente porque o nível da água pode variar rapidamente conforme a operação das comportas.
Ele citou o caso recente de um pescador que precisou ser resgatado após ficar ilhado e também acidentes registrados em outros pontos do Sistema Jacuí. Segundo o especialista, todas as usinas possuem sinalização, sirenes e planos de emergência, mas a principal medida de segurança continua sendo respeitar as áreas interditadas.
Ao final da entrevista, Ricardo Eifler reforçou que as barragens do Sistema Jacuí operam seguindo critérios técnicos e normas de segurança, buscando minimizar os impactos das cheias sempre que possível. No entanto, destacou que eventos extremos, como o registrado em 2024, podem superar a capacidade de regularização dos reservatórios, exigindo operações que priorizem a segurança das estruturas e da população.








