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ENFOQUE – 17 de setembro de 2015 – Quinta-feira

As fotos íntimas e a hipocrisia

Vou falar hoje sobre o assunto mais comentado em Sobradinho nos últimos dias. Você já deve estar imaginando qual seja. Sim, refiro-me à divulgação de fotos íntimas de algumas jovens.

Não se sabe até agora, e provavelmente nunca se saberá bem ao certo o que aconteceu, por isso falamos com base em suposições.

O que me chama a atenção nestes casos é a inversão de valores manifestada por algumas pessoas. A meu ver, em primeiro lugar, essas meninas devem receber solidariedade e não o julgamento moral da sociedade. O que cada um faz na intimidade de seu quarto não diz respeito a ninguém, por isso não podemos fazer nenhum comentário de aprovação ou reprovação pelos que as imagens mostram.

O erro que essas jovens cometeram não está no conteúdo das fotos, nem no ato de se fotografar nuas. Isso não é crime. Cada um é livre para fazer o que quiser na sua intimidade. O erro foi permitir que alguém tivesse acesso a essas imagens.

No entanto, mostrar ou passar uma foto a alguém não permite a esse alguém espalhar essas imagens pelos meios virtuais. Isso sim é condenável, isso sim é crime. Ou seja, as meninas em questão são, antes de tudo, vítimas.

Mas pelo que se ouve por aí, muitas pessoas em vez de condenar quem divulgou as imagens, condena as jovens. Até demissões teriam havido. Tenho dúvidas se existe base legal para uma demissão assim, mas mesmo que haja, não é justo porque reafirma a visão preconceituosa da sociedade. Pelo que percebo, a sociedade que condena quem tira fotos em poses íntimas é a mesma sociedade que não consegue esconder seu desejo de ver essas imagens. E isso se chama hipocrisia.

Esse episódio me faz lembrar a música Gení e o Zepelim, de Chico Buarque, aquela que diz: “joga pedra na Gení…”. Essa letra mostra como a sociedade é capaz de mudar de opinião rapidamente sobre as pessoas dependendo de seus interesses imediatos.

Eu concordo que as pessoas estão se expondo demais nas redes sociais. É óbvio. Vivemos tempos de superficialidades, do culto à imagem, do prazer imediato, de aparências em que cada um tenta usar aqueles que lhe parecem ser seus melhores atributos. Uns mostram seus carrões, outros seus corpões. Não basta mais ter ou fazer algo. É preciso transformar isso em imagens. E isso é muito preocupante, ainda mais quando envolve adolescentes que parecem ter cada vez menos noção dos limites entre o real e o virtual.

Mas, mesmo assim, ninguém tem o direito de repassar imagens íntimas de ninguém sem autorização. Sem falar que, pelos menos teoricamente, existe a possibilidade de haver montagens ou manipulações nas fotos, como algumas das vítimas alegam.

Eu tenho certeza que com a velocidade da vida contemporânea, amanhã ou depois isso estará esquecido e superado. Mas hoje, considero que não é justo condenar quem já paga o preço de um constrangimento enorme. Antes deve ser condenado quem violou a intimidade alheia.

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